{"id":14331,"date":"2026-07-29T12:35:16","date_gmt":"2026-07-29T10:35:16","guid":{"rendered":"https:\/\/africafashiontour.com\/o-sucesso-mundial-da-exposicao-africa-fashion\/"},"modified":"2026-07-29T13:29:54","modified_gmt":"2026-07-29T11:29:54","slug":"o-sucesso-mundial-da-exposicao-africa-fashion","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/africafashiontour.com\/pt-pt\/o-sucesso-mundial-da-exposicao-africa-fashion\/","title":{"rendered":"O sucesso mundial da exposi\u00e7\u00e3o \u00abAfrica Fashion\u00bb"},"content":{"rendered":"<h2>Entrevista \u00e0 Dra. Christine Checinska, curadora-chefe de moda e t\u00eaxteis africanos e da di\u00e1spora africana no Victoria and Albert Museum <\/h2>\n<h3 data-pm-slice=\"1 1 []\">\u00abAfrica Fashion\u00bb \u00e9 a primeira exposi\u00e7\u00e3o do V&#038;A dedicada exclusivamente \u00e0 moda africana nos 170 anos de hist\u00f3ria do museu. Qual foi o principal fator determinante ou a maior resist\u00eancia interna aquando da apresenta\u00e7\u00e3o inicial do projeto? <\/h3>\n<p data-pm-slice=\"1 1 []\"><strong>Dra. Christine Checinska <\/strong>  : O Victoria and Albert Museum (V&#038;A) \u00e9 o primeiro museu do mundo dedicado \u00e0 arte, ao design e \u00e0s artes performativas. Abriga a cole\u00e7\u00e3o nacional de t\u00eaxteis e moda, uma das mais vastas e completas do mundo. <\/p>\n<p>Esta exposi\u00e7\u00e3o constitui a apresenta\u00e7\u00e3o mais abrangente da moda africana alguma vez organizada no Reino Unido. Oferece uma vitrine a criadores provenientes de mais de vinte pa\u00edses, abrangendo um vasto leque de est\u00e9ticas, e insere-se no compromisso cont\u00ednuo do V&#038;A de destacar o trabalho dos criadores africanos e da di\u00e1spora global, ao mesmo tempo que desenvolve as nossas cole\u00e7\u00f5es e a nossa programa\u00e7\u00e3o nesta \u00e1rea. <\/p>\n<p>Embora n\u00e3o seja a primeira vez que apresentamos moda negra no museu, tal como nas exposi\u00e7\u00f5es <em>\u00abBlack British Style\u00bb<\/em> e <em>\u00abStreetstyle\u00bb<\/em>, esta \u00e9 a primeira grande exposi\u00e7\u00e3o do museu dedicada \u00e0 produ\u00e7\u00e3o criativa do continente. Esper\u00e1vamos que esta exposi\u00e7\u00e3o desse in\u00edcio a uma redefini\u00e7\u00e3o da geografia da moda e se tornasse um marco decisivo para o setor. <\/p>\n<p>A moda africana est\u00e1 na vanguarda da cria\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea a n\u00edvel mundial. Foi esta constata\u00e7\u00e3o que nos motivou desde o in\u00edcio: a for\u00e7a e o impacto dos pr\u00f3prios criadores exigiam que lhes prest\u00e1ssemos aten\u00e7\u00e3o. A exposi\u00e7\u00e3o celebrou, na altura certa, a vitalidade e a inova\u00e7\u00e3o de uma sele\u00e7\u00e3o de criadores de moda, explorando o trabalho dos pioneiros do s\u00e9culo XX e das figuras-chave desta cena cosmopolita e diversificada dos dias de hoje.  <\/p>\n<p>A exposi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m lan\u00e7ou as bases para projetos futuros, uma vez que continuamos a trabalhar em colabora\u00e7\u00e3o para desenvolver cole\u00e7\u00f5es e programas relevantes para p\u00fablicos de todas as culturas, origens sociais e perspetivas.<\/p>\n<h3 data-pm-slice=\"1 1 []\">Optou por iniciar a narrativa em meados do s\u00e9culo XX, na era das independ\u00eancias africanas (dos anos 50 aos anos 80). Por que raz\u00e3o este per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica foi o ponto de partida indispens\u00e1vel para compreender a moda africana contempor\u00e2nea? <\/h3>\n<p data-pm-slice=\"1 1 []\"><strong>Dra. Christine Checinska <\/strong>  : H\u00e1 muitas hist\u00f3rias para contar sobre o mundo da moda africana e muitas formas de as contar. Gra\u00e7as \u00e0s minhas pesquisas anteriores, \u00e0 minha pr\u00f3pria carreira como designer e \u00e0 minha experi\u00eancia como membro da di\u00e1spora, sabia que a hist\u00f3ria que ir\u00edamos contar tinha de falar de autonomia, abund\u00e2ncia e criatividade sem fronteiras. <\/p>\n<p>Sabia que era importante dar ao nosso p\u00fablico uma vis\u00e3o geral tanto da eleg\u00e2ncia como da dimens\u00e3o pol\u00edtica da moda. Ao aprofundar a minha investiga\u00e7\u00e3o, percebi que a profissionaliza\u00e7\u00e3o deste meio, ou seja, o surgimento de marcas de designers com o pr\u00f3prio nome, de lojas de moda e de estilo de vida, e o impacto da moda \u00e0 escala internacional, tinha come\u00e7ado durante o renascimento cultural de meados do s\u00e9culo, impulsionado pelas independ\u00eancias e pelas lutas de liberta\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>T\u00ednhamos, portanto, de come\u00e7ar por este per\u00edodo: dos anos 50 at\u00e9 1994, para coincidir com o fim da era do apartheid na \u00c1frica do Sul. \u00c9 obviamente importante reconhecer que, para muitos, a liberta\u00e7\u00e3o foi ef\u00e9mera. Conflitos armados de diversa natureza persistem ainda hoje em v\u00e1rios pa\u00edses do continente.  <\/p>\n<h3 data-pm-slice=\"1 1 []\">Durante os anos da independ\u00eancia, o vestu\u00e1rio tornou-se um poderoso instrumento de afirma\u00e7\u00e3o nacional e de liberta\u00e7\u00e3o cultural. Na sua opini\u00e3o, de que forma \u00e9 que simples escolhas de tecidos ou penteados funcionaram como manifesta\u00e7\u00f5es quotidianas de soberania? <\/h3>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-12196\" src=\"https:\/\/africafashiontour.com\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/1-3.jpg\" alt=\"A exposi\u00e7\u00e3o \u00abAfrica Fashion\u00bb no Museu Quai Branly\" width=\"819\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/africafashiontour.com\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/1-3.jpg 819w, https:\/\/africafashiontour.com\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/1-3-480x600.jpg 480w\" sizes=\"(min-width: 0px) and (max-width: 480px) 480px, (min-width: 481px) 819px, 100vw\" \/><\/p>\n<p data-pm-slice=\"1 1 []\"><strong>Dra. Christine Checinska: <\/strong>  A moda \u00e9 uma linguagem n\u00e3o verbal universal. \u00c9 uma forma de express\u00e3o pessoal que nos une a todos enquanto seres humanos: esse desejo espont\u00e2neo de adornar e moldar o corpo. <\/p>\n<p>A artista t\u00eaxtil Sonya Clark disse um dia: <em>\u00abO tecido \u00e9 para os africanos o que os monumentos s\u00e3o para os ocidentais. \u00bb<\/em> Isto resume na perfei\u00e7\u00e3o a import\u00e2ncia do tecido em toda a \u00c1frica, quer se trate de metros de tecido em bruto enrolados \u00e0 volta do corpo ou de pe\u00e7as estruturadas feitas \u00e0 medida.<\/p>\n<p>Na sec\u00e7\u00e3o da exposi\u00e7\u00e3o intitulada <em>\u00abPol\u00edtica e Po\u00e9tica do Tecido\u00bb<\/em>, mostr\u00e1mos como os t\u00eaxteis tradicionais foram revalorizados durante esse per\u00edodo e usados com um orgulho renovado, especialmente nas zonas urbanas. Tomemos o caso do adire, por exemplo. Shade Thomas-Fahm, frequentemente considerada a primeira estilista da Nig\u00e9ria, cortou e transformou o adire em mini-vestidos vendidos na sua loja em Lagos, que era o ponto de encontro incontorn\u00e1vel dos elegantes da \u00e9poca.  <\/p>\n<h3 data-pm-slice=\"1 1 []\">Como \u00e9 que conseguiu orientar a sua sele\u00e7\u00e3o para apresentar a moda de um continente com 54 pa\u00edses sem cair na armadilha da generaliza\u00e7\u00e3o ou de uma est\u00e9tica puramente folcl\u00f3rica?<\/h3>\n<p data-pm-slice=\"1 1 []\"><strong>Dra. Christine Checinska: <\/strong>  As tend\u00eancias da moda africana s\u00e3o indefin\u00edveis. Tal como todas as tend\u00eancias da moda, est\u00e3o em constante evolu\u00e7\u00e3o, em constante inova\u00e7\u00e3o e em permanente reinven\u00e7\u00e3o. O panorama contempor\u00e2neo da moda africana \u00e9 t\u00e3o diversificado quanto o pr\u00f3prio continente, com uma mir\u00edade de abordagens criativas e est\u00e9ticas de design. Querer mostrar tudo era e continua a ser imposs\u00edvel.   <\/p>\n<p>Em vez disso, concentr\u00e1mo-nos naqueles que tinham uma hist\u00f3ria clara para contar atrav\u00e9s do seu trabalho, naqueles que expressavam um ponto de vista forte e que se destacavam na cena internacional. Tom\u00e1mos a decis\u00e3o de nos concentrarmos exclusivamente em criadores origin\u00e1rios do continente e\/ou que nele trabalham. Do ponto de vista geogr\u00e1fico, adot\u00e1mos uma abordagem por territ\u00f3rios que esbatia as antigas fronteiras coloniais.  <\/p>\n<p>A exposi\u00e7\u00e3o <em>\u00abAfrica Fashion\u00bb<\/em> proporcionou uma vis\u00e3o geral da eleg\u00e2ncia e do impacto pol\u00edtico do setor atrav\u00e9s de cinco eixos tem\u00e1ticos, desenvolvidos a partir de conversas diretas com os designers:<\/p>\n<ul>\n<li><strong>Minimalista:<\/strong> dedicado aos criadores cuja est\u00e9tica privilegia os cortes arquitet\u00f3nicos e uma utiliza\u00e7\u00e3o s\u00f3bria de ornamentos e cores, \u00e0 semelhan\u00e7a de Mmusomaxwell.<\/li>\n<li><strong>Mixologist (Mix\u00f3logo):<\/strong> re\u00fane os criadores que privilegiam a mistura de cores, padr\u00f5es e refer\u00eancias culturais, tal como no trabalho da IAMISIGO.<\/li>\n<li><strong>Artesanal (Artisanal):<\/strong> destaca o toque manual, quer se trate de uma pe\u00e7a de alta-costura de Imane Ayissi ou de uma pe\u00e7a de vestu\u00e1rio tecida \u00e0 m\u00e3o com corantes naturais criada por Awa Meit\u00e9.<\/li>\n<li><strong>Afrotopia (Afrotopia):<\/strong> o grupo mais abrangente, que apresenta formas narrativas ou obras de criadores que utilizam a sua pr\u00e1tica para comentar uma quest\u00e3o pessoal ou um tema de atualidade comovente (por exemplo, a explora\u00e7\u00e3o do empoderamento das mulheres por Sindiso Khumalo, ou a reflex\u00e3o de Rich Mnisi sobre as identidades LGBTQI+ atrav\u00e9s das cores das bandeiras do Orgulho e Trans).<\/li>\n<li><strong>Co-Cria\u00e7\u00e3o:<\/strong> destaca a moda \u00e0 medida, uma componente essencial da cria\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea, tanto no continente como na di\u00e1spora.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Gra\u00e7as \u00e0 inclus\u00e3o do filme de Sunny Dolat, <em>*In Their Finest Robes*<\/em>, pudemos apresentar silhuetas provenientes dos 54 pa\u00edses do continente.<\/p>\n<h3 data-pm-slice=\"1 1 []\">Na exposi\u00e7\u00e3o, pe\u00e7as hist\u00f3ricas de criadores emblem\u00e1ticos como Shade Thomas-Fahm ou Alphadi convivem com obras da nova gera\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea, como Thebe Magugu ou Kenneth Ize. Como \u00e9 que construiu este di\u00e1logo visual e intelectual entre as gera\u00e7\u00f5es? <\/h3>\n<p><strong>Dra. Christine Checinska: <\/strong>  Na vers\u00e3o inicial apresentada em Londres, havia uma separa\u00e7\u00e3o clara entre os dois per\u00edodos hist\u00f3ricos, uma vez que a exposi\u00e7\u00e3o se estendia por dois pisos. No entanto, a primeira obra apresentada foi o conjunto de alta-costura rosa de Imane Ayissi. Sendo o espa\u00e7o original circular, a pe\u00e7a de Imane servia tamb\u00e9m de ponte entre os dois andares e as duas \u00e9pocas, pois a sua pr\u00e1tica faz precisamente isso: atravessar \u00e9pocas e sistemas de moda.  <\/p>\n<p>Na sec\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea, criadores como Patience Torlowei e Mai Atafo, cujo trabalho tamb\u00e9m abrange os dois per\u00edodos, proporcionaram-nos uma vis\u00e3o retrospectiva do s\u00e9culo XX. Muitos criadores da nova gera\u00e7\u00e3o citam, ali\u00e1s, Patience, Mai e Imane como pioneiros incontorn\u00e1veis. <\/p>\n<h3 data-pm-slice=\"1 1 []\">A fotografia de est\u00fadio (nomeadamente as obras de Sanl\u00e9 Sory e Malick Sidib\u00e9) ocupa um lugar central na sua cenografia. De que forma \u00e9 que a fotografia \u00e9 indissoci\u00e1vel da hist\u00f3ria e da narrativa da moda africana? <\/h3>\n<p><strong>Dra. Christine Checinska: <\/strong>  A exposi\u00e7\u00e3o aborda tanto a auto-representa\u00e7\u00e3o como a forma de se vestir (<em>self-fashioning<\/em>). A integra\u00e7\u00e3o da fotografia e do cinema realizados por criadores africanos foi, por isso, essencial. A fotografia e o cinema s\u00e3o tamb\u00e9m ferramentas atrav\u00e9s das quais reescrevemos a nossa presen\u00e7a nas hist\u00f3rias da moda mundial.  <\/p>\n<h3 data-pm-slice=\"1 1 []\">Escreve muito sobre a dimens\u00e3o narrativa dos tecidos africanos. No caso de tecidos como o Aso Oke, o Kente ou o Bogolan, de que forma \u00e9 que o t\u00eaxtil consegue preservar e transmitir uma mem\u00f3ria hist\u00f3rica e pol\u00edtica que a palavra escrita, por vezes, silenciou? <\/h3>\n<p><strong>Dra. Christine Checinska: <\/strong>  O escritor e cr\u00edtico cultural Sarat Maharaj colocou um dia a seguinte quest\u00e3o: <em>\u00abArte t\u00eaxtil \u2013 quem \u00e9s tu? \u00bb<\/em>, sugerindo que poder\u00edamos compreender o t\u00eaxtil sob a figura camale\u00f3nica do \u00abindecid\u00edvel\u00bb: algo que, \u00e0 primeira vista, pertence a um g\u00e9nero espec\u00edfico, mas que, olhando mais de perto, parece esticar e distorcer esse g\u00e9nero ao ponto de lhe fazer perder a forma*.<\/p>\n<p>O tema do tecido \u00e9 vasto e de grande riqueza. Abrange uma diversidade de t\u00e9cnicas, uma mir\u00edade de significados culturais e a personifica\u00e7\u00e3o de in\u00fameras hist\u00f3rias. Em conjunto, o tecido e a moda fazem muito mais do que cobrir o corpo: tornam-se meios estrat\u00e9gicos de autoexpress\u00e3o, especialmente quando a voz de um indiv\u00edduo foi silenciada ou marginalizada. Ambos podem ser utilizados para contestar ou reafirmar a sua posi\u00e7\u00e3o na sociedade.   <\/p>\n<p>No entanto, a moda tamb\u00e9m faz parte da forma como a distribui\u00e7\u00e3o desigual do poder em todas as sociedades \u00e9 constru\u00edda, mantida e vivida como leg\u00edtima. Estas s\u00e3o verdades reconhecidas no que diz respeito a estas fun\u00e7\u00f5es alargadas, quer se trate das culturas do Norte ou do Sul global. <\/p>\n<p>No entanto, \u00e9 f\u00e1cil cair na armadilha de pensar que todas as tend\u00eancias africanas e formas de vestir o corpo s\u00e3o, sistematicamente, atos deliberados de compromisso criativo, ou que todas as tend\u00eancias africanas encerram significados pol\u00edticos ocultos relacionados com quest\u00f5es raciais. N\u00e3o \u00e9 esse o caso. Alguns criadores desejam simplesmente conceber roupas bonitas.  <\/p>\n<p>No entanto, v\u00eam-me imediatamente \u00e0 mente certas tradi\u00e7\u00f5es t\u00eaxteis, como os tecidos comemorativos, em que momentos hist\u00f3ricos espec\u00edficos s\u00e3o literalmente imortalizados e impressos no tecido, retratando a hist\u00f3ria e expressando lealdades pol\u00edticas. O tecido gan\u00eas <em>\u00abFreedom in My Hand I Bring\u00bb<\/em>, apresentado na exposi\u00e7\u00e3o e inclu\u00eddo no livro <em>\u00abAfrica Fashion\u00bb<\/em>, \u00e9 um exemplo perfeito disso. <\/p>\n<h3 data-pm-slice=\"1 1 []\">Atualmente, a ind\u00fastria mundial da moda procura desesperadamente solu\u00e7\u00f5es de sustentabilidade e de conce\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica. Considera, tal como alguns investigadores, que os conhecimentos tradicionais africanos no dom\u00ednio t\u00eaxtil s\u00e3o, por natureza, circulares e de ritmo lento, muito antes de o Ocidente ter teorizado o conceito de \u00abmoda sustent\u00e1vel\u00bb? <\/h3>\n<p><strong>Dra. Christine Checinska: <\/strong>  Concordo plenamente com esta afirma\u00e7\u00e3o. A terceira sec\u00e7\u00e3o da publica\u00e7\u00e3o <em>\u00abAfrica Fashion\u00bb,<\/em> intitulada <em>\u00abAfro Fashion Futures\u00bb,<\/em> aborda esta observa\u00e7\u00e3o em pormenor. <\/p>\n<p>Com base nas defini\u00e7\u00f5es alargadas do que significa \u00abser africano\u00bb, esbo\u00e7adas na introdu\u00e7\u00e3o do livro, os <em>\u00abAfro-Fashion Futures\u00bb<\/em> s\u00e3o sistemas de moda do futuro alimentados pela preserva\u00e7\u00e3o das ra\u00edzes africanas, que, por sua vez, alimentam a nossa rela\u00e7\u00e3o com n\u00f3s pr\u00f3prios, com a comunidade e com o ambiente. A natureza sustent\u00e1vel das modas vern\u00e1culas e ind\u00edgenas continua a ser demasiado ignorada pelo Norte global. <\/p>\n<p>Ao afastar-se da mistura de tecnologia e elementos da hist\u00f3ria negra, caracter\u00edstica do afrofuturismo, para imaginar um futuro em que as comunidades negras prosperem, os <em>\u00abAfro-Fashion Futures\u00bb<\/em> englobam os conhecimentos locais tradicionais e as novas tecnologias \u00abglocais\u00bb para invocar um futuro em que n\u00f3s, no sentido de um \u00abn\u00f3s\u00bb alargado, e o planeta possamos todos prosperar.<\/p>\n<h3 data-pm-slice=\"1 2 []\">A exposi\u00e7\u00e3o suscitou uma enorme emo\u00e7\u00e3o entre as comunidades afrodescendentes em todo o mundo. Houve algum testemunho ou algum encontro com um visitante que a tenha marcado particularmente durante esta digress\u00e3o mundial? <\/h3>\n<p><strong>Dra. Christine Checinska: <\/strong>  H\u00e1 dois momentos que me v\u00eam imediatamente \u00e0 mente. Tive a sorte de receber uma c\u00f3pia digital do livro de visitas durante a paragem no Museu McCord, em Montreal. Nele, pode ler-se, numa p\u00e1gina inteira, esta frase simples: <em>\u00abAfrica to the world!\u00bb.<\/em> A outra recorda\u00e7\u00e3o marcante remonta \u00e0 primeira edi\u00e7\u00e3o em Londres. Um dos nossos agentes de seguran\u00e7a, o Stanley, contou-me que tinha ligado \u00e0 sua fam\u00edlia na Nig\u00e9ria a partir do interior da exposi\u00e7\u00e3o para lhes dizer: <em>\u00abEstamos no V&#038;A!\u00bb.<\/em>    <\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m tenho de partilhar a rea\u00e7\u00e3o da modelo Adhel Bol, o rosto das modelos da exposi\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea da Africa Fashion. Eis o que ela escreveu depois de visitar a exposi\u00e7\u00e3o em Londres pela primeira vez: <\/p>\n<blockquote><p><em>\u00abNunca tinha visto na minha vida um manequim de montra castanho ou negro, e muito menos um manequim com penteados africanos, tran\u00e7as, tran\u00e7as Bantu e as nossas caracter\u00edsticas africanas t\u00e3o bem real\u00e7adas: l\u00e1bios carnudos, ma\u00e7\u00e3s do rosto salientes, um nariz largo&#8230;. Ao ver-me ganhar vida desta forma, espero que isso possa inspirar um ou dois rapazes e raparigas negros a sentirem-se representados, inclu\u00eddos na conversa, numa sala, no cen\u00e1rio internacional da moda ou em qualquer outro dom\u00ednio da vida. \u00bb<\/em><\/p>\n<p>\u2014 <strong>Adhel Bol, novembro de 2022<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<h3 data-pm-slice=\"1 1 []\">Considera que esta importante exposi\u00e7\u00e3o conseguiu mudar a perce\u00e7\u00e3o dos compradores e das grandes lojas de luxo ocidentais relativamente ao valor comercial (e n\u00e3o apenas art\u00edstico) das marcas de designers africanos?<\/h3>\n<div id=\"attachment_14263\" style=\"width: 829px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-14263\" class=\"wp-image-14263 size-full\" src=\"https:\/\/africafashiontour.com\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/2-10.jpg\" alt=\"  Dra. Christine Checinska - Kayvan Michael Bazergan\" width=\"819\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/africafashiontour.com\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/2-10.jpg 819w, https:\/\/africafashiontour.com\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/2-10-480x600.jpg 480w\" sizes=\"(min-width: 0px) and (max-width: 480px) 480px, (min-width: 481px) 819px, 100vw\" \/><p id=\"caption-attachment-14263\" class=\"wp-caption-text\">Dra. Christine Checinska &#8211; Kayvan Michael Bazergan<\/p><\/div>\n<hr>\n<p><strong>Dra. Christine Checinska: <\/strong>  Acho que sim. Em breve, vai abrir um espa\u00e7o dedicado \u00e0 moda africana na Harrods, em Londres. Marcas de designers como a Maison ArtC j\u00e1 desfilam na London Fashion Week. A IAMISIGO apresenta as suas cole\u00e7\u00f5es na Copenhagen Fashion Week.   <\/p>\n<p>Estas iniciativas d\u00e3o a conhecer ao Norte global a magnific\u00eancia da moda africana. Os criadores n\u00e3o procuram a aprova\u00e7\u00e3o do Ocidente; pelo contr\u00e1rio, esta visibilidade transforma as perspetivas, desconstr\u00f3i os preconceitos e oferece oportunidades reais de crescimento econ\u00f3mico e expans\u00e3o. <\/p>\n<p>O valor comercial das marcas africanas \u00e9 agora plenamente reconhecido. Esta evolu\u00e7\u00e3o j\u00e1 era esperada h\u00e1 muito tempo. <\/p>\n<h3 data-pm-slice=\"1 1 []\">Que mensagem gostaria de transmitir aos jovens investigadores, historiadores de arte ou curadores de \u00c1frica e da di\u00e1spora que, atualmente, pretendem documentar e arquivar a hist\u00f3ria da moda dos seus respetivos pa\u00edses?<\/h3>\n<p><strong>Dra. Christine Checinska: <\/strong>  Fale diretamente com os pr\u00f3prios criadores, seja o canal atrav\u00e9s do qual eles desejam expressar-se. Estabele\u00e7a rela\u00e7\u00f5es de confian\u00e7a com eles. Incentive-os a arquivar eles pr\u00f3prios o seu trabalho \u00e0 medida que avan\u00e7am na sua trajet\u00f3ria.  <\/p>\n<p>Estudem. Todo o meu trabalho assenta na investiga\u00e7\u00e3o acad\u00e9mica. Penso que isso confere uma legitimidade e um rigor indispens\u00e1veis aos trabalhos dos historiadores e curadores. Devemos este n\u00edvel de aten\u00e7\u00e3o aos detalhes hist\u00f3ricos, aliado a um conhecimento aprofundado dos materiais e a um dom\u00ednio da teoria, a todas as pessoas que procuramos representar em exposi\u00e7\u00f5es, livros, revistas, etc.   <\/p>\n<h3 data-pm-slice=\"1 1 []\">Se tivesse de escolher uma \u00fanica pe\u00e7a, uma \u00fanica pe\u00e7a de roupa de toda esta exposi\u00e7\u00e3o que, na sua opini\u00e3o, simbolizasse o futuro da moda africana, qual seria e porqu\u00ea?<\/h3>\n<p><strong>Dra. Christine Checinska: <\/strong>  Escolher apenas uma pe\u00e7a de roupa \u00e9 uma tarefa realmente dif\u00edcil! Em vez disso, gostaria de escolher o filme encomendado a Lakin Ogunbanwo, intitulado <em>\u00abWho Deh Shake?\u00bb<\/em>, pois capta essa sensa\u00e7\u00e3o de abund\u00e2ncia criativa presente em todo o continente. Considero esta obra profundamente otimista. Oferece uma vis\u00e3o do futuro que j\u00e1 est\u00e1 a tornar-se realidade.   <\/p>\n<p>Gostaria de associar a isto a reflex\u00e3o do criador Amine Bendriouich, que encerra a terceira sec\u00e7\u00e3o do livro. Trata-se de uma pe\u00e7a muito pessoal, mas, atrav\u00e9s dela, Amine convida-nos a confiar na capacidade de renova\u00e7\u00e3o do continente. Apesar de tudo o que possa impedir o desenvolvimento de um sistema de moda sustent\u00e1vel no continente, existe uma f\u00e9 inabal\u00e1vel nas possibilidades.  <\/p>\n<h6><em>*Maharaj, Sarat, \u00abTextile Art \u2013 Who Are You?\u00bb em Reinventing Textiles, Volume 2: Gender and Identity, ed. Janis Jefferies, 2001, pp. 7-10 <\/em><\/h6>\n<hr>\n<p>Ler tamb\u00e9m<\/p>\n<ul>\n<li><a href=\"https:\/\/africafashiontour.com\/pt-pt\/africa-fashion-a-exposicao-que-esta-a-redefinir-o-panorama-da-moda-mundial\/\">Africa Fashion, a exposi\u00e7\u00e3o que est\u00e1 a redefinir o panorama da moda mundial<\/a><\/li>\n<li><a href=\"https:\/\/africafashiontour.com\/pt-pt\/a-exposicao-africa-fashion-a-criatividade-africana-em-destaque-no-victoria-albert-museum-em-londres\/\">A exposi\u00e7\u00e3o Africa Fashion: a criatividade africana em destaque no Victoria &#038; Albert Museum em Londres<\/a><\/li>\n<li><a href=\"https:\/\/africafashiontour.com\/pt-pt\/a-africa-intima-de-azzedine-alaia\/\">A \u00c1frica \u00edntima de Azzedine Ala\u00efa<\/a><\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta entrevista exclusiva, a Dra. Christine Checinska revela os segredos do sucesso da exposi\u00e7\u00e3o \u00abAfrica Fashion\u00bb em todo o mundo. Londres, Brooklyn, Montreal, Sydney e, pela primeira vez, Paris: a diversidade da criatividade africana foi apresentada no \u00e2mbito de museus de prest\u00edgio.   <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14261,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[143],"tags":[],"class_list":["post-14331","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-modo-pt-pt"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/africafashiontour.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14331","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/africafashiontour.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/africafashiontour.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/africafashiontour.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/africafashiontour.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14331"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/africafashiontour.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14331\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14340,"href":"https:\/\/africafashiontour.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14331\/revisions\/14340"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/africafashiontour.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14261"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/africafashiontour.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14331"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/africafashiontour.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14331"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/africafashiontour.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14331"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}