África no centro da revolução criativa global

by | 10 Fevereiro 2026 | Modo

Impulsionada pela juventude conectada e por um apoio institucional sem precedentes, a revolução criativa de África está a transformar a moda, a música e as artes em motores de crescimento económico.
dakar fashion week 2025

Está atualmente em curso uma transformação espetacular no continente africano. De Lagos a Tunes, passando por Accra e Cairo, uma nova geração de artistas, criadores e empresários culturais está a reescrever as regras do jogo global. Esta revolução criativa, impulsionada por uma juventude ousada e tecnologicamente ligada, está a posicionar África como um ator-chave nas indústrias culturais internacionais.

A moda africana, há muito confinada a nichos de mercado, está agora a deixar a sua marca nas passarelas internacionais. Os designers do continente baseiam-se num rico património têxtil, inovam com técnicas ancestrais e criam peças que contam histórias autênticas. Esta efervescência criativa já não está confinada às fronteiras do continente; irradia para o exterior e influencia as tendências globais, provando que África não é apenas uma fonte de inspiração, mas um líder criativo por direito próprio.

Investimento estratégico em talento criativo

As instituições financeiras internacionais reconhecem agora o potencial económico colossal das indústrias criativas de África. Estão a ser criados programas em grande escala para transformar esta reserva de talentos num verdadeiro motor de crescimento económico. Estas iniciativas não se limitam a fornecer financiamento, mas oferecem um ecossistema completo que inclui formação, orientação e acesso aos mercados internacionais.

Na Nigéria, o epicentro desta revolução cultural, estão a ser feitos investimentos maciços para estruturar e profissionalizar a economia criativa. O objetivo é ambicioso: criar milhões de empregos diretos e indirectos para os jovens, injectando simultaneamente milhares de milhões na economia nacional. Esta abordagem holística reconhece que o talento, por si só, não é suficiente; é igualmente necessário desenvolver as infra-estruturas, as competências empresariais e as redes de distribuição.

A oferta de formação abrange todo o espetro digital, desde as competências básicas até às tecnologias mais avançadas. A inteligência artificial, a animação, a robótica e o desenvolvimento de jogos de vídeo fazem parte do programa, preparando os jovens africanos para os empregos de amanhã. Centenas de milhares de jovens estão a beneficiar destes programas através de universidades, politécnicos e centros tecnológicos em todo o país.

Do artesanato à indústria global

A indústria da moda africana está a sofrer uma transformação notável, passando do artesanato tradicional para uma indústria verdadeiramente estruturada e competitiva. Iniciativas como a Fashionomics Africa personificam esta evolução, centrando-se em toda a cadeia de valor. Já não se trata apenas de criar roupas bonitas, mas de construir uma marca “made-in-Africa” reconhecida mundialmente pela sua qualidade, inovação e autenticidade.

Mais de sete mil profissionais da moda, dos têxteis e dos acessórios já beneficiaram de formação especializada e de equipamento moderno. É significativo o facto de mais de 65% destes beneficiários serem mulheres, o que sublinha o papel crucial das mulheres empresárias nesta revolução criativa. Estes programas não só transmitem competências técnicas, como também abrangem a gestão empresarial, o marketing digital e o acesso aos mercados internacionais.

Empresárias de quarenta países africanos estão agora a participar em programas de incubação e aceleração em linha, criando uma comunidade pan-africana de designers de moda. As melhores empresárias recebem um financiamento inicial substancial para desenvolverem os seus projectos, transformando ideias criativas em negócios viáveis e escaláveis.

Inovação sustentável

Emma Forson, a designer ganesa por detrás da Elnak Recycle, é um exemplo perfeito de como a moda moderna africana combina criatividade e responsabilidade ambiental. A sua empresa recolhe materiais têxteis não utilizados em empresas e casas, bem como roupas usadas, para lhes dar uma segunda vida. Esta abordagem circular evita que estes materiais acabem em aterros sanitários e em câmaras de visita, um grande problema ambiental em muitas cidades africanas.

Graças à sua formação, Emma conseguiu adquirir terrenos, expandir as suas instalações de armazenamento e formar mais mulheres para reforçar a sua equipa. A sua empresa também oferece um sistema de recolha em linha e um mercado para reciclagem, demonstrando como a tecnologia pode amplificar o impacto das iniciativas sustentáveis. A sua história é um testemunho do potencial transformador de programas de apoio bem concebidos.

Norte de África, arquitetura e design ao serviço da moda

Na Tunísia, Samia Ben Abdallah criou a AWA (Architect with Artisan), uma linha de malas e jóias em pele inspirada na arquitetura tunisina. Esta fusão entre o património arquitetónico e o artesanato cria peças únicas que contam a história do país, ao mesmo tempo que satisfazem os padrões estéticos contemporâneos. Nomeada “Mulher Empreendedora do Ano 2021 no sector do artesanato na Tunísia”, é atualmente uma das cem mulheres mais importantes da moda africana.

O sucesso de Samia mostra como os programas de apoio podem atuar como um catalisador para o desenvolvimento de empresas criativas. A sua história também ilustra a riqueza e a diversidade da criatividade africana, capaz de combinar tradição e modernidade, artesanato e design contemporâneo.

No Egito, a Green Fashion, fundada por Hadeer Shalaby, representa outra faceta desta inovação sustentável. A empresa concebe e produz vestuário e acessórios utilizando resíduos reciclados de fábricas e oficinas de costura. A Green Fashion tem agora um sítio de vendas online e exporta as suas criações, provando que a moda africana sustentável pode conquistar mercados internacionais.

Para além da moda, uma revolução cultural global

A revolução criativa de África vai muito além da moda. A música africana, em particular o afrobeat de origem nigeriana, conquistou os palcos internacionais. Doze artistas africanos ganharam os prestigiados prémios Grammy, confirmando o reconhecimento mundial do talento musical do continente. Estas vitórias não são meras anedotas; marcam um ponto de viragem histórico na indústria musical mundial.

Nollywood, a indústria cinematográfica nigeriana, é a terceira maior do mundo, produzindo mais de 2.500 filmes por ano e empregando mais de 300.000 pessoas. Esta indústria pioneira conta histórias africanas por africanos, oferecendo uma narrativa autêntica que ressoa muito para além das fronteiras do continente. Nollywood não se limita a entreter; molda percepções, valoriza culturas locais e cria enormes oportunidades económicas.

As artes do espetáculo estão também a registar um crescimento notável. No Egito, iniciativas como Hakawy we Ghanawey reúnem diferentes tribos em Assuão e envolvem as mulheres, os pilares das suas famílias, na preservação da arte e do património cultural. Esta abordagem inclusiva garante que a revolução criativa beneficia todos os segmentos da sociedade.

O Teatro Metro, uma companhia oficial de teatro de rua criada graças a programas de apoio, ilustra como um apoio estruturado pode transformar iniciativas artísticas em empresas sustentáveis. Segundo o seu fundador, Maher El Haggar, estes programas permitiram que a sua companhia aprendesse a cobrar pelas suas actividades, a profissionalizar-se e a tornar-se uma empresa verdadeiramente sustentável.

As mulheres no centro da transformação

Um aspeto particularmente notável desta revolução criativa é o papel central desempenhado pelas mulheres. Programas específicos estão a atribuir orçamentos substanciais para apoiar as empresas em fase de arranque no sector criativo geridas por mulheres. Esta abordagem reconhece que a capacitação económica das mulheres não é apenas uma questão de equidade, mas também uma poderosa alavanca para o desenvolvimento económico e social.

As mulheres empresárias africanas não estão apenas a participar nesta revolução; estão frequentemente a liderá-la. Quer se trate de moda sustentável, reciclagem de têxteis, design de jóias de inspiração arquitetónica ou preservação cultural, as mulheres estão na vanguarda da inovação criativa africana.

Um futuro brilhante para as indústrias criativas de África

As indústrias criativas de África têm um potencial imenso, nomeadamente para a criação de emprego em massa. A convergência de uma série de factores favoráveis (uma população jovem numerosa e conectada, um rico património cultural, investimentos crescentes e programas de formação estruturados) está a criar as condições ideais para uma expansão rápida e sustentável.

A revolução cultural de África já não é uma promessa distante; está em curso, assinalando um marco decisivo para o continente. Da moda ao cinema, à música e às artes performativas, África está a transbordar de inovação e inspiração que está a captar a atenção do mundo. Os designers africanos já não se limitam a tentar imitar os modelos ocidentais; estão a criar os seus próprios códigos, a sua própria estética, as suas próprias narrativas.

Esta transformação ultrapassa a simples dimensão económica. Tem a ver com identidade, orgulho e representação. Quando um artista africano ganha um prémio Grammy, quando um filme de Nollywood atinge uma audiência mundial, quando um estilista africano apresenta a sua coleção em Paris ou Milão, toda a África ganha visibilidade e reconhecimento.

Um movimento crescente

A expansão prevista dos programas de apoio às indústrias criativas a outros países africanos é um bom augúrio para a amplificação deste movimento. A distribuição de conteúdos musicais, a produção cinematográfica, as plataformas de moda em linha – todos estes sectores crescerão exponencialmente nos próximos anos, impulsionados por investimentos específicos e por uma geração de empresários determinados.

Para o Africa Fashion Tour e para todos os actores da moda africana, este é um momento histórico. O continente já não se contenta em ser uma fonte de inspiração para os outros. Está a impor as suas criações, os seus criadores e a sua visão ao mundo inteiro. A revolução criativa africana está aqui, vibrante, inovadora e decididamente virada para o futuro.


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