O camarim real de Elie Kuame e os Elefantes
A imagem mais marcante desta competição será, sem dúvida, a chegada da equipa da Costa do Marfim. Sob a direção criativa deElie Kuame, os Elefantes chegaram não apenas como atletas, mas “como reis”.
O designer, cuja mistura cultural (costa-marfinense, libanesa, mauritana) permeia cada peça, transformou os têxteis numa armadura de prestígio. Ao incorporar símbolos de autoridade real, como os bancos Akan, e ao trabalhar com materiais nobres como a tanga Kita e o Baoulé, Kuame conseguiu uma fusão técnica entre tradição e modernidade.
“O objetivo era projetar uma imagem de poder. – Elie Kuame.
O desafio técnico era imenso: estruturar uma tanga tradicionalmente “macia”, tecida à mão, em gabardinas impecáveis, capazes de rivalizar com as principais marcas de luxo do mundo. O omnipresente dourado não é apenas uma cor, mas um símbolo da influência social da Costa do Marfim.
As “Guerras dos Tecidos”, diplomacia têxtil pan-africana
O fenómeno não se limita à Costa do Marfim. Cada delegação transformou a sua chegada numa declaração de identidade:
- Mali e Bogolan: Ao escolherem este tecido tingido de lama, as “Águias” transmitiram uma mensagem de sabedoria e resistência.
- Burkina Faso e Faso Danfani: símbolos da integridade nacional e da produção local de algodão.
- O Senegal e o Grand Boubou: uma demonstração de elegância e disciplina refinadas.
- O Benim e o Baru Bekuru: valorização do saber-fazer ancestral do povo Baatonu.
Esta geopolítica do vestuário mostra que as nações africanas recuperaram o controlo da sua narrativa. Vestir estas criações endógenas é um ato explícito de resistência contra a validação por parte dos conglomerados de luxo ocidentais, como a LVMH ou a Kering.
Alavancagem económica do artesanato local
Por detrás de cada peça de vestuário existe todo um ecossistema. A institucionalização dos têxteis nacionais no CAN gera uma procura estável para milhares de tecelões, tintureiros e bordadores. Como salienta a UNESCO, África tem potencial para se tornar um líder mundial da moda.
O artesanato têxtil já não é apenas uma tradição, é uma economia do futuro. A venda destes produtos apoia a educação e a saúde nas zonas rurais. É aquilo a que os especialistas chamam a “diplomacia do martelo e da ferramenta”: uma forma de nos lembrar que o artesão tem um lugar central num mundo que se está a tornar digital.
Moda soberana e eco-responsável
Em 2025, designers africanos como Hawi Midekssa (Etiópia) e Frank Aghuno (Nigéria) estão a provar que o afrofuturismo está em marcha. Ao contrário da Fast Fashion, a moda artesanal africana privilegia a qualidade, o tempo e o respeito pelo artesão.
A CAN 2025 terá provado uma coisa: o sucesso de uma nação mede-se agora tanto pela força dos seus objectivos como pela nobreza do seu fio condutor. Ao substituir os logótipos das multinacionais por motivos ancestrais, a África já não se contenta em jogar o jogo dos outros; está a criar as suas próprias regras.
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