Quando um passaporte se torna uma ponte para as suas raízes
A paisagem turística da África Ocidental está a passar por uma transformação histórica. O que antes era uma viagem de lazer tornou-se uma arquitetura complexa de “turismo de raízes”. O Gana, o Benim e a Guiné estão agora a seguir uma estratégia de soft power sem precedentes para reaproximar os afro-americanos da sua herança ancestral.
O Gana, pioneiro da “Economia de Retorno
Tudo começou em 2019 com a iniciativa Ano do Regresso. Ao comemorar o 400.º aniversário da chegada dos primeiros cativos africanos à Virgínia, o Gana transformou o trauma histórico numa viagem espiritual. Foi um sucesso retumbante, com a contribuição do turismo para o PIB a aumentar de 3% para mais de 10% em apenas alguns anos.
Celebridades como Steve Harvey, Ludacris e Idris Elba tornaram-se os rostos deste renascimento. Os seus testemunhos emocionados a partir das fortalezas de Elmina ou de Cape Coast criaram um choque narrativo, encorajando milhares de pessoas a darem o salto. Em 2024, o Gana abriu novos caminhos ao conceder a cidadania a mais de 500 membros da diáspora, provando que o país não está apenas à procura de visitantes, mas de cidadãos.
Benim, inovação legislativa e digitalização
Sob a direção de Patrice Talon, o Benim optou por uma via mais estrutural e legal. Com a lei de 2024 sobre o reconhecimento da nacionalidade, o país oferece um passaporte beninense a todos os descendentes de africanos subsarianos. Já não são necessárias provas genéticas complexas: o portal digital “My Afro Origins” facilita agora estes procedimentos à distância.
Para transmitir esta mensagem, o Benim nomeou embaixadores de alto nível, como o realizador de cinema Spike Lee e a cantora Ciara. Ao celebrar a espiritualidade vudu em Ouidah e ao investir no futuro Museu Internacional da Escravatura e da Memória, o Benim está a transformar os seus locais históricos em lugares de reconciliação e de peregrinação moderna.
Guiné, marca de ADN
Mais recentemente, é a Guiné que tem estado a fazer ondas. Em janeiro de 2026, o casal de Hollywood Meagan Good e Jonathan Majors recebeu a cidadania guineense depois de testes de ADN terem confirmado as suas raízes no país. Nomeados embaixadores da “Branding Guinea”, projectam uma imagem de dignidade e soberania.
Para além do simbolismo, a sua missão é atuar como pontes estratégicas para incentivar o investimento da diáspora e promover o destino. O seu itinerário, que inclui visitas de alto nível à Grande Mesquita de Conacri e a locais históricos, faz parte do esforço do governo para reposicionar a Guiné como uma encruzilhada essencial para a excelência criativa e o orgulho cultural na África Ocidental.
África “Sem filtro
Para além das estrelas de cinema, são os criadores de conteúdos que estão a mudar o jogo. A digressão africana do streamer IShowSpeed (48 milhões de subscritores) ofereceu uma exposição crua e não editada. Ao mostrarem cidades modernas como Nairobi e Luanda, infra-estruturas de ponta e jovens criativos, estes influenciadores estão a desconstruir o estereótipo da “cabana de lama” enraizado no imaginário ocidental.
Esta comunicação direta, sem intermediários, permite que a diáspora veja a África como ela é: um centro tecnológico e cultural vibrante.
Recuperação da soberania
Estas estratégias de “turismo de identidade” são muito mais do que campanhas de marketing. São um ato de descolonização mental. Ao facilitarem o regresso físico e legal da diáspora, estas nações permitem aos africanos contar a sua própria história.
A ancestralidade, validada pela ciência e apoiada pelo direito, está a tornar-se a nova base de uma economia de retorno. O desafio para o futuro será transformar esta visibilidade ao estilo de Hollywood num desenvolvimento inclusivo, que beneficie tanto as populações locais como os seus irmãos e irmãs do estrangeiro.
África já não é apenas uma terra de necessidade, é uma terra de oportunidades e de reencontro.
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