A carreira de Roxane Mbanga, artista multidisciplinar de origem guadalupe, camaronesa e francesa, oferece uma perspetiva única sobre a evolução da arte contemporânea e a construção da identidade. Radicada em Paris, Roxane desconstrói os clichés e cria uma visão única da criatividade, simultaneamente autêntica, empenhada e inovadora.
É possível aprender a ser um artista?
Roxane Mbanga define-se como uma artista multidisciplinar, explorando a moda, o cinema, o design gráfico, a fotografia, a escrita e a performance. O seu percurso, longe dos circuitos habituais, testemunha a sua determinação em não se conformar com enquadramentos pré-estabelecidos. Desde os 14 anos, a fotografia tornou-se o seu primeiro meio de expressão, marcando o início de uma vocação artística alimentada pelo devaneio.
A sua escolha de estudar na Academia Gerrit Rietveld em Amesterdão, uma escola conhecida pela sua abordagem concetual, permitiu-lhe desenvolver uma prática artística que não se limitava a uma única disciplina. Esta abordagem multidisciplinar está no centro do seu trabalho, onde cada meio – seja fotografia, vídeo, design gráfico ou performance – contribui para contar uma história e criar espaços de reflexão que envolvem todos os sentidos.
A sua identidade complexa e multicultural influenciou fortemente a sua arte. Nascida e criada em Paris, com raízes nos Camarões e em Guadalupe, Roxane viajou desde muito cedo, particularmente em África e no Médio Oriente. Esta profunda ligação com África levou-a a tirar um ano sabático no continente em 2019, uma experiência que marcou um ponto de viragem na sua carreira e na sua perceção de si própria.
Na Nigéria, descobriu uma cena cultural vibrante. No entanto, a viagem também evidenciou a sua perceção de si própria como ocidental e mestiça em África, confrontando-a com a dinâmica do privilégio e do colorismo. Esta constatação reforçou o seu desejo de integrar estas noções de identidade no seu trabalho, transformando as suas experiências íntimas numa declaração artística política e social.
NOIRES, um projeto original
O projeto “NOIRES” (com um “e” mudo) é a expressão mais bem conseguida desta identidade e abordagem ativista. Lançado em 2021, o projeto nasceu da segunda vaga do movimento Black Lives Matter e da necessidade de Roxane se exprimir face às realidades do racismo e da tokenização. “Noir(e)s” é uma série de instalações imersivas que representam a “casa dos sonhos” de Roxane, um lugar de descanso e repouso para as mulheres negras, um lugar de comunhão onde elas podem se encontrar, conversar e recarregar as baterias.
Cada instalação “NOIRES” é um quarto desta casa nómada, que viaja pelo mundo para ouvir o que as mulheres têm para dizer e oferecer workshops activadores. Das salas de estar aos quintais, das varandas às casas de banho, cada espaço é concebido para ser um lugar de troca e de partilha, como demonstrou a hora do chá organizada para a sua exposição “Spill the Tea” na Galerie 193 em Paris.
Roxane sublinha a importância destes momentos de intimidade feminina, em que as discussões, mesmo as que podem ser consideradas “mexericos”, se tornam uma força, uma forma de nos protegermos e de não carregarmos os fardos sozinhos.
Inicialmente, Roxane esperava que “NOIRES” servisse de ponte para a compreensão das realidades das comunidades negras por um público mais vasto. No entanto, apercebeu-se de que é impossível compreender uma experiência sem a ter vivido. Assim, “NOIRES” tornou-se um espaço “para nós”, um lugar criado por e para pessoas negras, onde estas se podem ver, encontrar e retirar as suas “máscaras” e “armaduras”.
A ambição de levar esta casa nómada para a estrada é também uma forma de agradecer e retribuir às pessoas que colaboraram com ela, levando a obra ao seu público.
O artista empresário
Para além da sua abordagem artística, Roxane Mbanga encarna um novo modelo de artista: o do artista empreendedor. Longe do cliché do artista maldito e isolado, ela gere a sua carreira com pragmatismo e diversidade. Os seus rendimentos provêm de múltiplas fontes, incluindo workshops, funções como diretora artística de marcas e outros projectos variados. Essa versatilidade é um ponto forte que lhe permite estar presente em diferentes pólos e indústrias simultaneamente.
O seu papel como diretora artística da Iamisigo, a marca de moda nigeriana de Bubu Ogisi, é um exemplo eloquente desta versatilidade. Sediada em Paris, Roxane trabalha à distância com uma equipa espalhada por Lagos, Quénia, Suíça, Berlim e Londres. Este trabalho exige rigor e organização, com chamadas regulares e a utilização de ferramentas de colaboração. O seu papel é o de um “maestro de orquestra”, assegurando que todas as criações se enquadram no mundo rico e complexo da IamIsigo, uma marca que se situa “no limite entre a arte e a moda”.
Roxane reconhece os desafios de trabalhar com artistas, onde os egos podem estar presentes, mas enfatiza o enriquecimento mútuo que tais colaborações trazem. A sua experiência como diretora artística também se reflecte na sua própria prática artística, quer em termos dos temas que aborda, quer dos métodos de trabalho de grupo que utiliza. Ela é o epítome do artista contemporâneo que tem de ser um “empresário”, gerindo as suas comunicações, logística, presença nas redes sociais e sítio Web.
Criar um espaço cultural em África
O sonho final de Roxane Mbanga vai para além das suas actuais exposições e colaborações. “NOIRES” é a premissa de um projeto maior: a criação de um espaço cultural em África. Este ambicioso local mostraria a experiência das várias comunidades negras – africanas, caribenhas e diaspóricas – e ofereceria um espaço para aprender e restabelecer a ligação com estas culturas. Seria um local holístico, onde as pessoas poderiam comer, beber, aprender através de exposições e cursos de história, e até reaprender línguas ancestrais.
Este projeto de “casa grande” em África seria um prolongamento das conversas iniciadas nas suas instalações, sempre em colaboração com especialistas e comunidades. É o testemunho de uma visão a longo prazo, em que cada etapa da sua carreira é um tijolo acrescentado a este edifício cultural.
Roxane Mbanga não se limita a criar arte; ela constrói pontes, desconstrói preconceitos e convida as pessoas a recuperarem as suas histórias e identidades, oferecendo um modelo inspirador para o futuro das indústrias culturais e criativas em África e não só.
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