O Manifesto da Lagos Fashion Week para a moda africana

by | 28 Junho 2026 | Negócio

A 22 de junho de 2026, por ocasião da London Climate Action Week, a Lagos Fashion Week e a Coligação da Moda Africana lançaram «The Blueprint for a Regenerative Fashion Future». Redigido em conjunto no final de um trabalho colaborativo, este manifesto apela à inversão das relações de poder para preservar o valor económico, intelectual e humano em solo africano
Manifeste Lagos Fashion Week

A necessidade imperativa de soberania e de renovação da moda africana

A indústria mundial da moda atravessa uma crise estrutural profunda, caracterizada pela sobreprodução e pelo consumo excessivo. Atualmente, os consumidores compram cerca de 60% de peças de roupa a mais em comparação com o início dos anos 2000, mantendo essas peças durante metade do tempo. Ao mesmo tempo, menos 1% dos têxteis usados são reciclados para a confeção de novas peças de vestuário.

Perante este modelo linear devastador para o ambiente, a Lagos Fashion Week (LFW) consolidou-se como um laboratório de inovação sustentável de importância mundial. Fundada em 2011 por Omoyemi Akerele através da sua agência Style House Files, a plataforma reúne, em cada estação, mais de sessenta criadores e dezenas de milhares de visitantes.

A abordagem de Omoyemi Akerele associa intimamente a criação artística à responsabilidade ambiental e ao desenvolvimento socioeconómico. Esta perspetiva analítica tem a sua origem no seu percurso na Universidade de Warwick, onde obteve um mestrado em Direito Económico Internacional (LLM) entre 2001 e 2002. As suas investigações iniciais sobre o impacto ecológico e humano das empresas petrolíferas no delta do Níger moldaram a sua compreensão sistémica dos desequilíbrios entre a extração de recursos naturais e a distribuição do valor acrescentado.

Ao aplicar esta experiência jurídica e económica ao setor têxtil, concebeu a Lagos Fashion Week como um instrumento de defesa da justiça ambiental e da soberania industrial. Para Omoyemi Akerele, a moda deve deixar de ser um instrumento de exploração para se tornar um vetor de regeneração e proteção das comunidades.

Esta visão recebeu um reconhecimento histórico aquando da atribuição do Prémio Earthshot 2025 à Lagos Fashion Week, na categoria «Construir um mundo sem resíduos» (Build a Waste-Free World), entregue em novembro de 2025 no Rio de Janeiro pelo príncipe William, que concedeu à organização uma bolsa no valor de um milhão de libras esterlinas.

A assimetria comercial em números

O manifesto lançado em The Mills Fabrica em Londres baseia-se na constatação de uma profunda injustiça comercial. Para ilustrar este fenómeno de extração de valor, os dados macroeconómicos do continente revelam uma assimetria flagrante entre a exportação de matérias-primas e a importação de produtos manufaturados acabados.

Esta perda líquida de valor acrescentado para o continente pode ser expressa pela seguinte equação:

Saldo Comercial Bruto do Setor Têxtil = Exportações de Matérias-Primas – Importações de ProdutosAcabados Ou seja, aplicando os dados macroeconómicos anuais estimados:15 mil milhões de dólares – 23 mil milhões de dólares = -8 mil milhões de dólares

Esta fuga de capitais e este défice de transformação industrial traduzem-se nos seguintes fluxos:

  • Exportação de matérias-primas (fibras em bruto, algodão não transformado): estimada em 15 mil milhões de dólares por ano, caracterizada por uma captação muito reduzida de valor acrescentado local.
  • Importação de vestuário e calçado (produtos acabados de pronto-a-vestir): estimada em 23 mil milhões de dólares por ano, o que mantém uma forte dependência dos mercados externos.
  • Perda líquida de valor acrescentado: estimada em 8 mil milhões de dólares por ano, o que impede o desenvolvimento do emprego industrial local.

O manifesto salienta que este desequilíbrio não resulta de uma falta de talento ou de recursos, mas sim de um «défice de propriedade» estruturalmente perpetuada. Os países industrializados do Norte têm, historicamente, utilizado a África como uma fonte de matérias-primas baratas e uma fonte de inspiração estética, mantendo ao mesmo tempo o controlo sobre o design industrial, as patentes e a distribuição de artigos de luxo. O manifesto apela à preservação da totalidade do valor intelectual, material, artesanal e logístico em solo africano.

The Blueprint: Os 10 pilares da regeneração

A African Fashion Coalition e a Lagos Fashion Week × Prémio Earthshot

«The blueprint for a regenerative fashion future» está disponível no site da Lagos Fashion Week. Este documento de referência é o resultado de um processo colaborativo iniciado durante o Manifesto Lab em abril de 2026. Este grupo de trabalho reuniu figuras de destaque das áreas da criação, da investigação e do ativismo no continente: Simone Smit (diretora para a África do Prémio Earthshot), Adama Amanda Ndiaye (fundadora da Dakar Fashion Week), Mahlet Teklemariam (fundadora da Hub of Africa Fashion Week), Liz Ricketts (The Or Foundation), Renee Neblett (Instituto Kokrobitey) e a investigadora Jackie May.

O manifesto estrutura-se em torno de dez pilares estratégicos interligados:

1. Património cultural e conhecimentos vivos (Património Cultural e Saberes Vivos)

Integrar os conhecimentos tradicionais e intergeracionais no cerne da criação contemporânea.

2. A circularidade como fundamento (A circularidade como fundamento, não como tendência)

Institucionalizar a reparação, a reutilização e a gestão moderada dos recursos para ir além da moda passageira do «greenwashing».

3. Criação comunitária e prosperidade (Criação e Prosperidade Lideradas pela Comunidade)

Garantir uma distribuição justa do valor e testar modelos inovadores de participação acionista comunitária.

4. Sustentabilidade cultural e proteção da propriedade intelectual (Sustentabilidade cultural e proteção da propriedade intelectual)

Proteger legalmente os padrões, as tonalidades e as técnicas contra a apropriação abusiva por parte das marcas ocidentais.

5. Justiça ambiental e responsabilidade global (Waste Justice & Global Accountability)

Exigir que os países do Norte assumam a responsabilidade jurídica e financeira pelos fluxos maciços de resíduos têxteis usados importados para África.

6. Produção local e soberania económica (Produção local e soberania económica)

Industrializar localmente a transformação das fibras naturais africanas (algodão, ráfia, seda).

7. Inovação regenerativa e resiliência climática (Inovação Regenerativa e Sensível às Alterações Climáticas)

Apoiar as tecnologias sustentáveis e o respeito pelos ecossistemas agrícolas locais.

8. Acesso aos mercados e poder das plataformas (Acesso ao mercado e poder das plataformas)

Criar redes de acesso aos mercados internacionais geridas por plataformas africanas soberanas.

9. Infraestruturas e sistemas (Infraestruturas e Sistemas)

Investir nos transportes, na energia e na logística intra-africana para estimular o comércio regional.

10. Consumo consciente e mudança comportamental (Consumo Consciente e Mudança de Comportamento)

Educar para um consumo consciente, centrado no valor sentimental e na durabilidade da peça de roupa.

Do manifesto às passarelas

Longe de ser um mero documento teórico, esta política rigorosa de responsabilidade ambiental já é uma realidade nas passarelas da Lagos Fashion Week, onde cada designer convidado tem de demonstrar o seu compromisso. Nas últimas edições, quatro abordagens artísticas ilustraram particularmente esta transição:

  • Eki Kere: que cria silhuetas sofisticadas e arquitetónicas a partir de ganga totalmente reciclada.
  • Cute-Saint: que cria um guarda-roupa contemporâneo e sem distinção de género a partir de têxteis em segunda mão, valorizados e selecionados em mercados locais.
  • Adira Oodua Textile Hub: que recupera as técnicas tradicionais de tingimento iorubá, à base de pigmentos naturais e plantas locais.
  • Fruché: que valoriza a seda reciclada e o algodão tecido à mão para contar histórias culturais africanas autênticas.

Ao associar a arte do corte ao respeito pela terra e à soberania económica, o manifesto The Blueprint for a Regenerative Fashion Future demonstra que a moda africana já não procura a validação do mundo: traça os contornos de um futuro global mais justo e sustentável.


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