Como é que o tecido de arquivo se transforma em linguagem artística?
Fundada em 1846, a fábrica holandesa Vlisco estabeleceu laços históricos e comerciais profundos com a África Ocidental e Central. Ao longo das décadas, foram sobretudo as mulheres africanas — comerciante e clientes — que conferiram aos estampados o seu verdadeiro estatuto patrimonial, atribuindo-lhes nomes vernáculos, provérbios e funções sociais codificadas.
Para celebrar os seus 180 anos, a marca decidiu confiar seis dos seus motivos mais emblemáticos a artistas contemporâneos da África Ocidental e da África Central. Esculturas em metal, madeira de coqueiro esculpida, moedas desvalorizadas, colagens fotográficas tecidas e vitrais de plástico reciclado: cada criador apropriou-se de um desenho de arquivo para traduzir as suas narrativas íntimas e coletivas na matéria-prima.
Seis artistas e seis diálogos singulares com a memória têxtil
Cada uma das seis obras criadas para esta coleção permanente explora a ressonância entre o motivo impresso, o património cultural e as realidades contemporâneas do continente:
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Sébastien Boko (Benim) e o motivo «Mari Capable»:
O artista multidisciplinar do Benim concebeu a obra «The World in Motion», uma escultura aérea em aço inoxidável pintado. Inspirada nos adornos da irmandade das máscaras Egungun e no pano usado pela sua mãe e pelas suas tias em Cotonou, a peça celebra o movimento perpétuo e a transmissão intergeracional.
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Atisso Goha (Togo) e o motivo «Mama Benz»:
Em homenagem às lendárias comerciantes togolenses que construíram o poder económico do setor têxtil em Lomé, o escultor criou Mianô N’Dôkosu («A Nossa Mãe Sol» na língua éwé). Concebida a partir de peças de automóveis recuperadas e de elementos de carroçaria, a escultura retrata de forma poderosa a resiliência feminina.
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Ayobami Ogungbe (Nigéria) e o motivo «Fertility»:
O artista visual nigeriano combina fotografia de estúdio, colagem e técnicas de tecelagem manual para compor o retrato de uma mãe e da sua filha. O entrelaçamento do papel fotográfico e do tecido faz eco à sua série & Co e ilustra a forma como a memória familiar se transmite como um tecido vivo.
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Yaw Owusu (Gana) e o motivo «A Torneira»:
O artista plástico ganês esculpiu uma composição monumental utilizando milhares de pequenas moedas (pesewas ganesas). Ao revisitar este motivo que simboliza a abundância e os fluxos financeiros («Money Tap»), o artista questiona a história do comércio, a volatilidade das moedas e o valor real do trabalho artesanal.
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Jean Servais Somian (Costa do Marfim) e o motivo «Fallen Tree»:
Conhecido pelo seu trabalho de marcenaria sustentável, o designer da Costa do Marfim criou «Standing Tree, Broken Tree» em madeira de coqueiro e esferas de bronze. A obra traduz a metáfora visual da árvore abatida para celebrar os ciclos infinitos de regeneração e fertilidade da natureza.
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Prisca Tankwey (RDC) e o padrão «Village Molokai»:
A artista de Kinshasa inspirou-se na homenagem prestada por Papa Wemba ao famoso bairro de Kinshasa para conceber «Kaokoko Korobo». Realizada sob a forma de uma instalação luminosa em vitral, feita a partir de plásticos coloridos reciclados e fragmentos de tecido, a obra questiona as dinâmicas de pertença, poder e sacralidade nas sociedades pós-coloniais.
Por que razão os têxteis estampados continuam a ser um domínio de reapropriação cultural
Esta colaboração institucional destaca um fenómeno central no ecossistema da moda e da arte em África: a metamorfose do objeto industrial em património imaterial. Embora a produção do tecido wax tenha origem fora do continente, foi precisamente a criatividade das sociedades africanas que lhe conferiu a sua alma, o seu valor comercial e o seu significado político.
Ao integrar estas seis criações originais na sua coleção patrimonial permanente, destinada a futuras exposições internacionais, a Vlisco formaliza a transição da peça de vestuário do quotidiano para o estatuto de obra de arte museológica.
Disponíveis na rede de lojas da marca e online, estes estampados reeditados vêm relembrar que o têxtil continua a ser um dos meios mais vibrantes para documentar a história social, económica e artística do continente africano.
Foto da capa: Ayobami Ogungbe
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