Por que razão a África deve criar instituições que protejam a sua inteligência cultural?
Durante anos, os intervenientes da moda africana tentaram abrir caminho em Paris, Nova Iorque, Milão ou Dubai. Mas uma questão fundamental permanece: por que razão são sempre os outros a abrir essas portas, e por que razão devemos continuar a pedir acesso a um sistema que não concebemos?
Para a estratega cultural Lulu Shabell, o problema nunca foi o acesso. É uma questãode arquitetura. Num ensaio seminal, ela estabelece as basesda ÀLKÉ (Art, Legacy, Knowledge, Enterprise), uma instituição pan-africana concebida para perdurar, construída sobre uma verdade cristalina: África nunca esteve na indústria da moda; esteve sempre na indústria da cultura.
A importância da propriedade intelectual
Lulu Shabell lembra-nos que aquilo a que o mercado mundial hoje chama «moda» não passa de uma expressão recente de práticas que a África cultiva há milénios.
- A caverna de Blombos (África do Sul): Descobertas arqueológicas revelaram 41 conchas perfuradas datadas de cerca de 75 000 anos, com vestígios de ocre vermelho. Este é o marco do início da comunicação humana através da ornamentação, muito antes do surgimento da arte figurativa na Europa.
- O Reino de Kuba (RDC): Os seus tecelões experientes utilizavam a geometria não como uma simples decoração, mas como um complexo sistema linguístico que codificava a genealogia, a cosmologia e o poder. Os têxteis serviam ali como moeda, contrato político e expressão cultural, séculos antes da assinatura da Convenção de Berna sobre a propriedade intelectual, em 1886.
No entanto, o mesmo preconceito histórico que outrora levou os colonos europeus a procurar origens não africanas para os bronzes de Ife (considerando-os demasiado sofisticados para serem locais) continua a manifestar-se hoje em formas mais subtis.
«Quando uma marca de luxo ocidental transforma a geometria Kuba em lucros sem pagar royalties, sem qualquer reconhecimento nem atribuição de propriedade às comunidades congolesas, isso não é inspiração. É exploração disfarçada de alta-costura. »
Para a ÀLKÉ, documentar cientificamente e proteger juridicamente esta anterioridade histórica não é um ato nostálgico. É o próprio fundamento do poder de negociação, da fixação de preços e do direito de licença.
Deixar de ser os alunos do luxo
O cerne da crise atual não está apenas nos mercados, mas também nas salas de aula. A maioria das escolas de moda do continente africano continua a ensinar a história do vestuário exclusivamente através de uma perspetiva ocidental.
Os estudantes são levados a considerar Paris ou Londres como os seus únicos pontos de referência, ignorando as complexas tradições têxteis locais, como o simbolismo Adinkra, o bordado com miçangas Ndebele ou os drapeados Maasai.
Esta educação leva os jovens criativos a verem-se como recém-chegados a uma história que, no entanto, foi moldada pelos seus próprios antepassados. Sem terem consciência de que são a fonte dessa tradição, atuam como meros subcontratados de oficinas, em vez de conservadores de um saber único.
A ÀLKÉ coloca, assim, a educação descolonial no centro da sua missão, com o objetivo de formar uma geração consciente de que a África não é aluna do luxo, mas sim uma das suas mais antigas professoras.
A cultura como infraestrutura económica
O termo «cultura» é, com demasiada frequência, banalizado, sendo tratado como um mero complemento espiritual em vez de um motor de riqueza económica. Os dados do relatório da UNCTAD de 2024 revelam um paradoxo impressionante:
- Em 2022, a moda africana gerou 4,2 mil milhões de dólares em exportações.
- O conjunto da economia criativa africana gerou 2,4 mil milhões de dólares em bens e 4 mil milhões de dólares em serviços.
- No entanto, a quota da África na economia criativa mundial ascendia apenas a 1,5 % em 2022.
O potencial de crescimento é enorme. De acordo com as projeções da BCG, com investimentos estruturais direcionados, a economia criativa africana poderá gerar entre 150 e 160 mil milhões de dólares por ano até 2030.
Esta discrepância entre o potencial criativo e o valor captado explica-se exclusivamente pela ausência de instituições sólidas que protejam essa riqueza. A ÀLKÉ pretende colmatar esta lacuna através de três mecanismos interligados:
- Um centro de excelência artesanal: para preservar, inovar e comercializar os saberes tradicionais.
- Um estúdio de capital de desenvolvimento (Venture Studio): Para estruturar e expandir empresas criativas viáveis e com potencial de exportação.
- Um fundo de dotação soberano (Endowment): Para garantir que os rendimentos financeiros se acumulem em benefício das gerações futuras, em vez de se esvaírem no final de um ciclo de subvenção ou de um projeto de curta duração.
O que devemos às gerações futuras
Construir estruturas permanentes é um dever que transcende as gerações. Na ausência de arquivos e de estruturas jurídicas para a defesa da propriedade intelectual coletiva, África foi despojada do seu património imaterial.
A ÀLKÉ compromete-se a inverter a tendência à escala continental. O pontapé de saída para esta aventura institucional será dado pelo primeiro ÀLKÉ Ball na Cidade do Cabo (África do Sul), a poucos quilómetros da gruta de Blombos, onde a humanidade começou a adornar-se com arte.
Este evento marcará o lançamento oficial do fundo de dotação ÀLKÉ, antes de seguir para as principais capitais culturais do continente: Lagos, Nairobi, Dakar, Adis Abeba, Acra e O Cairo.
Já não se trata de vender moda. Trata-se de consolidar a certeza de que a cultura africana é uma infraestrutura soberana e de que aquilo que nasce neste continente nunca mais deve sair dele sem direitos de propriedade intelectual nem benefícios locais.
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