Construir o ecossistema da moda e da inovação criativa na RDC
Da trajetória artística ao momento decisivo em Kinshasa
Nada deixava prever que Sidonie Latere se tornaria uma das figuras de destaque na incubação de empresas na África Central. Artista de alma, formada em artes visuais e publicidade na École Supérieure des Arts Saint-Luc de Liège (Bélgica), desenvolveu a sua carreira durante quase vinte anos no mundo da criação, da produção e da publicidade na Europa.
Foi durante as suas estadias regulares em Kinshasa que se operou uma tomada de consciência. Perante a efervescência e a criatividade transbordante das ruas de Kinshasa, Sidonie percebeu o desfasamento entre a abundância de talentos em bruto e a ausência quase total de infraestruturas para os rentabilizar.
«O talento está aí, em todo o lado. Mas o verdadeiro problema dos empreendedores em África é que somos obrigados a fazer tudo sozinhos, sem uma cadeia de valor em que nos possamos apoiar. Era necessário passar da mera criação para a estruturação de empresas viáveis. »
Para responder a esta necessidade, ela deu uma viragem estratégica: abandonou a postura de artista para assumir a de mentora, coach e empresária.
Kobo Hub, a primeira incubadora da RDC
Ao criar o Kobo Hub, Sidonie Latere lança as bases da primeira incubadora e aceleradora de Kinshasa. O objetivo é claro: formar os promotores de projetos, estruturar os seus modelos económicos e permitir-lhes gerar receitas recorrentes.
Apoiado inicialmente pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros dos Países Baixos e, posteriormente, por vários financiadores internacionais e fundos da diáspora, o Kobo Hub desenvolve espaços de coworking e programas de apoio adaptados às realidades do mercado local.
A ruptura do modelo setorial
Após alguns anos de atividade, Sidonie implementou uma transformação significativa na metodologia da Kobo Hub. Ao constatar que as incubadoras generalistas (que combinam tecnologia, agricultura, energia e artesanato com os mesmos mentores) apresentam taxas de insucesso elevadas, com cerca de 60 a 70 % das empresas a desaparecerem após dois anos, optou pela especialização setorial.
«Ser generalista implica muita teoria, mas poucos resultados no mercado. Ao especializarmo-nos num setor específico, integramos especialistas na área capazes de ajudar o empresário a aumentar o seu volume de negócios de 1 dólar para 10 dólares por mês.»
Sucessos emblemáticos
Esta abordagem específica rapidamente dá frutos, com o surgimento de sucessos internacionais:
- Schoolap: Esta startup de EdTech, apoiada pelo Kobo Hub, angariou fundos, estabeleceu a sua sede no Dubai e expandiu-se para a Costa do Marfim, o Benim, o Togo e o Quénia, ultrapassando os 2 milhões de dólares de volume de negócios.
- Kilubukila: Empresa especializada em design têxtil em Kinshasa, conseguiu modernizar e suavizar o tecido tradicional Kuba para criar o veludo do Kasaï. Fornecedora de grandes casas de moda, a marca lançou, nomeadamente, uma coleção em parceria com a Monoprix, em França, e exporta agora as suas criações para os Estados Unidos e para a Europa.
IRMA, o «Silicon Valley» da moda em Kinshasa
Com base nessa experiência, Sidonie Latere identifica as Indústrias Culturais e Criativas (ICC), e mais especificamente a moda, como o setor com o potencial mais subaproveitado da África Central. Daí surgeo Instituto Regional da Moda (IRMA).
Concebido como um espaço físico completo inspirado no modelo dos clusters tecnológicos, o IRMA reúne num único local tudo o que um criador precisa para desenvolver a sua atividade:
- Um Fab Lab têxtil e oficinas industriais de confeção.
- A primeira biblioteca especializada nas indústrias criativas em África.
- Espaços de coworking, um estúdio de fotografia e vídeo e um estúdio de podcast.
- Um estúdio de gravação musical e de ensaios (em parceria com a Planet Jupiter), que estabelece uma ligação natural entre a moda, a SAPE e a rumba congolesa.
O projeto assume uma dimensão internacional de grande importância na sequência de uma parceria estratégica com a Embaixada de França. Anunciado oficialmente pelo presidente Emmanuel Macron durante a cimeira África-França-RDC, o programa beneficiou de um investimento superior a 3 milhões de dólares para tornar Kinshasa o centro de referência da moda na África Central.
Investigação científica e a «SAPE do futuro»
Longe de se limitar à organização de desfiles, o Instituto Regional da Moda integra uma profunda dimensão académica e intelectual.
1. Investigação e Desenvolvimento
A IRMA financia atualmente os trabalhos de seis doutorandos integrados em universidades parisienses. As suas investigações centram-se na modernização dos têxteis tradicionais (como o tecido Kuba) e na formalização teórica da moda africana.
2. O Museu e a Exposição Permanente da SAPE
Inaugurada a 25 de setembro, uma exposição permanente dedicada à Sociedade dos Ambianceurs e das Pessoas Elegantes (SAPE) destaca este património imaterial reconhecido pela UNESCO. O objetivo é ir além do cliché do traje extravagante para ensinar a «SAPE do futuro»: uma filosofia em que os sapeurs defendem as criações locais e os têxteis feitos à mão no continente.
3. O Colóquio Científico de Kinshasa
Organizado nos dias 24 e 25 de setembro, em Kinshasa, este colóquio reúne investigadores, professores e intervenientes do setor das ICC provenientes de toda a África. O objetivo é elaborar um caderno de encargos e recomendações estratégicas destinadas aos governos e aos investidores.
Formar um «exército de técnicos» para a soberania industrial
Para Sidonie Latere, a prioridade absoluta da moda africana não reside no design, mas sim na técnica e na cadeia de abastecimento.
«Muitas marcas querem destacar-se com bons conceitos, mas o acabamento deixa frequentemente a desejar devido à falta de técnicos qualificados. Formamos um verdadeiro exército de técnicos em modelagem, modelagem digital para evitar o desperdício de tecido, costura de precisão e upcycling. »
Ao incentivar os criadores a delegarem a confeção a oficinas especializadas, em vez de fazerem tudo eles próprios, a IRMA estrutura uma verdadeira cadeia de valor industrial.
Ao alargar já as suas atividades a Brazzaville, aos Camarões, ao Gabão, à República Centro-Africana e, em breve, a Nairobi, na África Oriental, Sidonie Latere demonstra que o futuro da moda africana assenta na formação, nas infraestruturas físicas e na reapropriação soberana da sua narrativa cultural.
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