Os alicerces de uma experiência no terreno
Para Bethsabée Gabbay, a produção cultural não é um conceito teórico, mas sim uma disciplina que se aprende no terreno. Licenciada em gestão de eventos, aprende a profissão em grandes empresas como a GL Events e em torneios internacionais como Roland-Garros, onde atua como «caçadora de locais» insólitos em Paris.
Essa capacidade de valorizar e reinterpretar os espaços levou-a à Remix Community, um espaço de coworking pioneiro em Paris. Durante 4 anos, geriu ali uma comunidade híbrida de 300 membros, dividida em partes iguais entre empreendedores da área da tecnologia e profissionais criativos (artistas, designers gráficos, autores). Foi aí que compreendeu o poder das interações multidisciplinares e da programação de eventos como ferramenta de crescimento empresarial.
Em 2020, quando a pandemia da Covid-19 veio perturbar os seus planos de viagem à América Latina e a Detroit, Bethsabée aproveitou uma oportunidade no Benim, com a associação «Afrique Pleine d’Avenir». Em Cotonou, concebeu um festival multidisciplinar dedicado à emancipação e ao empreendedorismo feminino através da arte, da música e dos meios de comunicação social.
«No Benim, tive carta branca. A minha paixão é reunir as pessoas. Criámos um festival para promover o empreendedorismo das jovens mulheres e explorar como conciliar a criatividade com a ambição profissional. Foi um verdadeiro ponto de viragem. »
Esta imersão levou-a também a realizar uma investigação aprofundada sobre o setor têxtil beninense, de Cotonou a Natitingou, passando por Abomey. Aí, descobriu a riqueza do algodão local, mas também a vulnerabilidade dos saberes artesanais ancestrais face à padronização industrial. Lá, ela teceu laços sólidos com o ecossistema local, nomeadamente ao colaborar com Raffi, fundador de um espaço cultural alternativo em Porto-Novo, e com a editora musical Doli Doli.
A ciência dos «terceiros lugares»
Com base nessa experiência na África Ocidental, Bethsabée fixou-se em Montpellier para integrar a Halle Tropisme, um centro criativo de dimensão europeia que acolhe mais de 900 eventos por ano. Durante 4 anos, ocupou lá o cargo de responsável pelas Indústrias Culturais e Criativas (ICC).
Neste laboratório ao ar livre, fortemente ligado às dinâmicas de cooperação internacional da cidade de Montpellier, nomeadamente através da Bienal Euro-África, ela aperfeiçoa um modelo de gestão comunitária que se recusa a opor o grande público aos residentes criativos. Aí, aprende a conceber modelos de negócio para eventos complexos e resilientes, em que a rentabilidade não assenta apenas na venda tradicional de bilhetes, mas em lógicas de partilha de material, de mecenato cruzado e de parcerias transversais (como a aliança entre a cultura e o desporto).
A «Smart Consulting» ao serviço dos artistas e dos territórios
Desde 2025, já estabelecida como produtora cultural independente, Bethsabée Gabbay organiza a sua atividade em torno de três pilares de apoio com elevado valor acrescentado:
1. A aceleração da carreira comercial dos artistas
Com mais de 10 anos de experiência no mundo do empreendedorismo, Bethsabée encara o artista como um empresário. O seu serviço de acompanhamento ajuda os talentos a:
- Identificar, analisar e ganhar concursos públicos ou de cooperação internacional.
- Estruturar o seu posicionamento, o seu portfólio e a narrativa da exposição.
- Otimizar a sua visibilidade digital para atrair galerias e compradores de renome.
2. A estratégia de desenvolvimento de locais
Presta consultoria a espaços físicos e de eventos no seu processo de transformação cultural. Atualmente, está a apoiar um espaço na Normandia com o objetivo de o transformar numa residência de artistas sustentável, mobilizando apoios públicos e municipais.
3. A conceção de programas para as instituições
Bethsabée concebe programas de cooperação e mentoria de grande envergadura. No passado, coordenou uma incubadora para empreendedores criativos no Botsuana, integrando viagens de estudo (learning expeditions) à África do Sul e a Paris para dar a conhecer os bastidores da Fashion Week, feiras profissionais como a Tranoï e os compradores das Galeries Lafayette. Colabora também com a Expertise France na organização de feiras dedicadas às diásporas.
Embora a Bethsabée tenha vindo a amadurecer há muito o projeto de abrir o seu próprio «terceiro lugar» físico, a conjuntura fez com que a sua visão evoluísse. Face às complicações operacionais e imobiliárias de um espaço fixo, ela privilegia hoje a criação de coletivos móveis capazes de se expandirem de forma ágil a nível internacional.
Atualmente, está a preparar o lançamento de um coletivo de especialistas e artistas independentes entre a França, o Marrocos (Casablanca) e vários países de língua portuguesa, em parceria com uma sócia que gere artistas musicais e que opera no Brasil.
Para consolidar a visibilidade desta comunidade, esta utiliza o Instagram como uma ferramenta de comunicação social e de monitorização estratégica própria. Aí, partilha oportunidades de financiamento, analisa os mecanismos da indústria e destaca a riqueza das narrativas afrodescendentes.
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