Construir o futuro da moda no Benim com o programa FLY
Siti Ben Boina encarna esta geração de profissionais da diáspora que escolheram colocar os seus conhecimentos de vanguarda ao serviço do desenvolvimento do continente. Nascida em Paris e criada em Marselha, esta franco-Comoriana desenvolveu desde muito cedo uma paixão pela moda, um mundo cujas escolas de prestígio lhe pareciam inacessíveis. Começou por tirar uma licenciatura em gestão (DUT GEA), antes de conjugar as suas duas paixões com uma licenciatura especializada em gestão de produtos de moda em Aix-en-Provence, seguida de um mestrado em marketing de luxo em Paris.
O início da sua carreira foi na Vestiaire Collective, então em plena fase de arranque. Foi aí que adquiriu uma sólida experiência em mercados, bens em segunda mão e tecnologia aplicada à moda. Depois de lançar a sua própria marca de acessórios inspirada na estética da África Oriental e das Comores, mudou-se para o Senegal, antes de se instalar no Benim.
Durante dois anos e meio, Siti trabalhou na Anka (antiga Afrikrea), a plataforma de referência para os criadores africanos de moda e cosmética. Esta imersão permitiu-lhe decifrar as dinâmicas comerciais da África Oriental e Ocidental, tanto francófona como anglófona, antes de se estabelecer como consultora especializada em compliance e exportações. Em dezembro último, juntou-se à Sèmè City para estruturar e lançar o segundo grupo do programa FLY.
A incubadora FLY

Galeria Bai.
Implementado pela agência de desenvolvimento Sèmè City em Cotonou, em estreita parceria com o prestigiado Institut Français de la Mode (IFM) e financiado pelo Banco Mundial (através do projeto FP2E), o programa FLY (Fashion Led by Youth) é um novo tipo de acelerador.
Durante um período de 12 meses, a incubadora oferece um apoio abrangente que combina branding, modelação, merchandising, digital e marketing.
“
O nosso objetivo é fornecer aos empresários as ferramentas práticas de que necessitam para construir empresas viáveis, criadoras de emprego e preparadas para a exportação”
Após uma primeira entrada de 19 incubados (incluindo Fadil, o fundador da concept store com o mesmo nome), o grupo 2026, lançado em março, inclui agora 13 marcas cuidadosamente selecionadas. Ao contrário da edição anterior, o programa centra-se exclusivamente em empresas que já têm tração comercial e mostram um forte potencial de desenvolvimento sub-regional e internacional.
O formato de aprendizagem é híbrido e ultra-qualitativo:
- Seminários intensivos em Cotonou: os peritos do IFM deslocam-se de três em três meses para ministrar uma formação presencial de alto nível.
- Módulos em linha e tutoria individual: Entre os seminários, os incubados seguem cursos teóricos seguidos de entrevistas personalizadas de 30 a 60 minutos com professores sedeados em Paris para adaptar os conceitos à sua própria marca.
- Imersão em Paris: Um seminário exclusivo no coração do IFM, com visitas a ateliers e encontros profissionais.
- Dia da Demonstração: Uma apresentação no final do curso, apenas por convite, perante uma audiência de investidores e figuras do sector.
Decifrar os desafios estruturais que as indústrias criativas locais enfrentam
Com base nas suas experiências na Vestiaire Collective, Anka e Sèmè City, Siti Ben Boina analisa de forma clara os obstáculos que impedem a expansão das marcas da África Ocidental.
1. Normalização e retenção de talentos
O Benim possui um grande número de costureiras e alfaiates talentosos, mas a falta de um método de formação unificado impede a normalização das colecções. Além disso, os ateliers têm dificuldade em reter o seu pessoal qualificado, que muitas vezes opta por se estabelecer por conta própria assim que termina a sua formação.
2. A dor de cabeça do sourcing
Embora o Benim seja um grande produtor de algodão, a variedade de tecidos disponíveis localmente continua a ser limitada (materiais como o jersey e as malhas são escassos). Os criadores têm de recorrer aos países vizinhos para os artigos de retrosaria (fechos, botões, etiquetas), que são frequentemente importados da China ou da Turquia, o que aumenta os custos e os prazos de produção.
3. Custos logísticos proibitivos
A exportação intra-africana continua a ser um dos obstáculos mais frustrantes. Enviar uma encomenda de Cotonou para Lagos (a menos de três horas de distância) por uma transportadora formal custa por vezes mais do que o valor intrínseco da peça, obrigando as marcas a navegar entre sistemas informais e custos aduaneiros adicionais.
Narrativa cultural, a derradeira vantagem competitiva

Mulher Maravilhosa.
Perante estes condicionalismos, como é que as marcas beninenses conseguem sair vitoriosas? A resposta pode ser resumida numa palavra: storytelling.
“As marcas africanas têm histórias maravilhosas para contar. As suas criações estão enraizadas em elementos culturais extremamente fortes, e é esta ênfase na sua herança que as torna tão poderosas”.
Siti cita o exemplo da marca Vognon (do primeiro grupo), que reinterpreta de forma brilhante o trabalho com lantejoulas. Este know-how é diretamente inspirado nos trajes tradicionais coloridos e místicos dos Egunguns (os fantasmas da cultura vudu do Benim), transformando uma peça de vestuário cerimonial numa peça contemporânea topo de gama.
Construir o ecossistema do futuro
Fiel ao seu lema “Innovation Made in Africa”, a agência Sèmè City não pretende ficar-se pela incubação. Para dar uma solução duradoura ao problema da mão de obra, a agência está a trabalhar ativamente no lançamento de uma escola de moda em Cotonou.
Este projeto ambicioso cobrirá todo o espetro da indústria: desde a formação técnica (do CAP ao Bac+3) para estruturar as profissões oficinais, até aos diplomas de gestão (Bac+3 ao Bac+5) em parceria com instituições internacionais para formar os futuros diretores artísticos e gestores de produto do continente.
Ao promover ligações locais, como as colaborações visuais com estudantes da African Design School, Sèmè City está a moldar uma indústria de moda autónoma, orgulhosa e pronta a marcar o seu próprio ritmo na cena internacional.
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